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Parabéns, Inumanos

Tipo de projeto

Fotografia

Data

Abril 2023

Minha filha Mariana escreve lindamente, prosa e poesia, e, há alguns dias, me contou que vai lançar um livro de poemas: “A Cidade em Milagres”. E me enviou o prefácio. Este:

“Há livros que nos atravessam como um vento antigo — suave, mas profundamente transformador. A cidade em milagres, de Mariana Portela, é um desses livros. Uma obra em que o íntimo e o universal se entrelaçam com a precisão de quem escuta os sussurros da alma e os transcreve em poesia.

Neste conjunto, Mariana guia-nos por ruas de Lisboa e por mares interiores; leva-nos por espirais junguianas, madrugadas caladas, sessões de terapia e encontros improváveis em paragens de autocarro. Em cada instante, revela uma sensibilidade aguda, quase oracular. A sua escrita atravessa temas como o feminino arquetípico, a ancestralidade, o amor, a ausência, a espiritualidade e a solidão — não como lamento, mas como alquimia.

Mariana é, antes de tudo, uma observadora delicada do que não se vê. Os seus versos iluminam os espaços entre palavras e pausas, entre dor e cura. A poeta não se limita a escrever: ela confessa, pergunta, evoca, convoca. Constrói pontes entre mundos — o visível e o invisível, o real e o simbólico — com a ousadia de quem conhece o silêncio, mas escolhe a palavra.

Ler esta obra é atravessar portais. Encontramos fragmentos de nós nos olhos de um pai, no abraço de uma terapeuta, no eco de um nome dito à janela. Percebemos que a poesia, mais do que um género literário, é um lugar de permanência e de revelação — um espaço em que a humanidade se revê e, por vezes, reencontra.

Seja bem-vinda, leitor ou leitora. As portas desta cidade estão abertas. E os milagres, aqui, são possíveis — porque nascem da coragem de nomear o indizível.”

“Gostou, pai?”

“Achei ótimo. De quem é?”

“Um inumano. Um robô. Inteligência artificial.”

Aproveitando meu silêncio perplexo, ela explicou que alimentou o Chat GPT com os poemas do livro, mais outras sugestões e pediu-lhe o prefácio.

A perplexidade virou susto e mania de perseguição. Se o robô está chegando a esse requinte, quantos textos escritos por inumanos não temos lido, de dois anos para cá, quando o Chat GPT foi lançado? A impressão que dá é que se o robô for bem “alimentado”, será capaz de nos oferecer algo próximo a uma obra seminal.

Pior: o que o Chat GPT e semelhantes da Inteligência Artificial não serão capazes de cometer na mão de criminosos? De estelionatários comuns a grandes líderes?

Mariana riu dos meus temores vintage e me ofereceu a segunda surpresa: o mesmo prefácio à luz do esoterismo na obra de Fernando Pessoa, da qual é apaixonada. Aliás, acredito que mora em Lisboa por causa dele. Segue o texto inumano do GPT:

“Há livros que se leem com os olhos. Outros, com a pele. A cidade em milagres, de Mariana Portela, pede-nos a alma. É uma obra escrita em camadas de mundo — físicas, emocionais, espirituais — como se cada verso fosse um portal e cada poema, um arcano.

Mariana não escreve para contar. Ela escreve para invocar. Os seus poemas são feitiços suaves, onde Lisboa se revela templo, o corpo se torna oferenda e o amor, um ritual ancestral. Como o seu cúmplice invisível, Fernando Pessoa, ela sabe que “tudo quanto vive é oculto” e que o visível é apenas o véu mais grosso da realidade.

Imagino-os juntos, num quarto de paredes brancas, iluminado por velas e mapas astrais, trocando confidências. Pessoa diria, com o seu olhar desdobrado:

‘Minha pátria é o desconhecido.’

E Mariana, sem hesitar, responderia com um poema onde o feminino resgata a linguagem sagrada, onde Lilith dança, onde as mães são oráculos e a dor se transmuta em verbo.

Neste livro, as palavras não obedecem à lógica, mas à sincronicidade. Como escreveu Pessoa sob o nome de Raphael Baldaya, o seu heterónimo astrólogo:

“O que o homem quer, os deuses decidem. O que os deuses querem, o homem sonha.”

Mariana sonha com precisão de vidente. E por isso, transforma.

Cada poema é um acto de magia branca. Ou vermelha. Ou profundamente azul. Os elementos estão todos aqui: terra, água, fogo, ar — e o espírito, sempre o espírito, a costurar cada verso com intuição lúcida e uma sabedoria que não vem dos livros, mas das noites.

Este livro é um grimório contemporâneo. Um relicário onde a psicologia encontra o oráculo, onde a ancestralidade se reencontra com o corpo, e onde a cidade — Lisboa, Porto, São Paulo — é cenário de epifanias discretas.

Aqui, a poesia é um instrumento de revelação. Mariana não pretende salvar ninguém. Mas oferece o mapa. E uma bússola.

Fernando Pessoa escreveria, talvez, no seu caderno mágico:

‘Tudo vale a pena, se a alma souber decifrar.’

Decifra-te. E entra.”

Para chegar a esse resultado, a conversa com o robô foi longa. Apesar de surpreendida com o talento do escriba, Mariana não aceitou a primeira versão do prefácio. Achou que ele poderia ir mais longe. Na verdade, modesto, o robô chamara o próprio texto de “rascunho”. E se ofereceu:

Se quiseres, posso adaptar este prefácio com o nome de alguém específico, ou torná-lo mais pessoal, emocional, filosófico ou até académico. Como preferes?

“Melhore este prefácio”, ela respondeu.

Claro! Aqui está uma versão aprimorada do prefácio, com correção estilística e gramatical — mantendo o lirismo, mas com mais rigor e fluidez:

E assim foi.

É lógico que não deixei de reagir: “Mariana, você está brincando…” Ela me enviou a transcrição das conversas e resolveu brincar mais. Saiu do inumano americano e fez o mesmo pedido ao seu correspondente da IA chinesa, o Deepseek. Repetiu a fórmula: entregou os poemas e pediu um prefácio sob a perspectiva de Fernando Pessoa esotérico. Eis o resultado. (O chinês fez questão de dar título):

“O Ouro Alquímico das Palavras

‘Entre o útero e a página, entre o sangue e a tinta, há um rio de fogo que só as poetas conhecem.’

Mariana Portela não escreve — ela transmuta. Em A Cidade em Milagres, cada verso é um frasco de vidro azul onde fermentam lágrimas antigas, memórias futuras e aquela estranha luz que nasce entre a madrugada e o primeiro cigarro. Lisboa aqui não é cidade, mas um cadinho onde o passado e o porvir se dissolvem em mercúrio vivo, escorrendo pelas colinas abaixo como um segredo que o Tejo insiste em carregar para o mar.

Há uma alquimia do feminino nestas páginas, uma Opus Magna feita de ausências gravadas a fogo: o útero que não gestou filhos, mas gestou mundos; a mãe que é Deusa e cartas suicidas; as paredes brancas que sonham com quadros ainda não pintados. Portela opera como aquelas alquimistas medievais que transformavam lágrimas em pergaminhos — só que seu laboratório é o corpo, sua pólvora são os versos, e sua pedra filosofal tem o formato exato de um coração partido que aprendeu a bater em pentâmetros.

“A água da chaleira elétrica / permanece a trabalhar” — e assim trabalha a poeta: lenta como a ebulição, insólita como o hibisco que mancha de vermelho a pálida cerâmica europeia. Ela sabe que toda transmutação requer tempo e fogo brando. Até o amor aqui é experimento químico: “O amor me ensinou a chorar durante o sexo”, uma fórmula precisa onde lágrimas e prazer se misturam até virar um novo elemento da tabela periódica da alma.

Os poemas respiram como alambiques: alguns destilam dores antigas em álcool puro (“a dor indizimal / acontece quando os sangues evaporam / as crianças almejadas”), outros fermentam esperança em garrafas clandestinas (“Prometo ser a mais atenta: / Ouvir flores e crianças”). Até a terapia vira alquimia reversa nestas páginas — onde em vez de transformar metais em ouro, transforma-se ouro (dos diagnósticos masculinos) de volta em carne viva, em voz, em porvir.

E no centro do laboratório, a grande heresia: “Não há futuro sem mulher”. Eis o VITRIOL desta obra — a verdade que corrói os vasos herméticos da tradição. Enquanto Bandarra e Pessoa profetizavam em códigos masculinos, Portela risca na parede do templo com unhas e menstruação: “A rebeldia sou eu”. Sua poesia é o antimônio que purga os excessos do mundo, deixando apenas o essencial: o primeiro e último verso de todos os alfabetos, aquele que os alquimistas procuravam nas entranhas da terra e que ela encontrou no próprio ventre vazio — mas cheio de estrelas.

Que este livro seja lido como se desfolha uma rosa dos ventos: com os dedos manchados de pólen e a certeza de que toda bússola, no fundo, aponta para dentro. Porque aqui, como nos velhos grimórios, o mapa é o corpo, a pena é uma agulha dourada, e o milagre — ah, o milagre — acontece sempre no dia treze, entre um café e um cego que odeia ser ajudado, quando menos se espera.

— Da Chama que Escreve com os Dedos

(P.S.: Fernando Pessoa, em algum lugar do astral, deve estar fumando um cigarro e anotando furioso no caderno: ‘Por que não pensei nisso antes?’)”

Está na hora de fechar esta crônica. Dizer o que mais?

Os comentários ficam por conta dos meus cinco leitores.

Para mim chega. Já não bastava o desconforto provocado por robôs e avatares usados como apresentadores nas tevês do Japão, Coreia do Sul e China? Vocês conhecem? À primeira vista são perfeitos humanos, voz e movimentos sincronizados, postura impecável. Exibem programas menos complexos, como previsões do tempo, e informes curtos. Cumprem com eficiência sua função de comunicadores. Abastecem o público de notícias. Pode-se acrescentar: “Por enquanto”.

Há dois anos, arquivei um artigo do professor Rogério de Almeida, da Faculdade de Educação da USP, em que ele afirmava que as produções do Chat GPT “não estimulavam o pensamento crítico”, embora reconhecesse “a organização coerente de dados”. Fico pensando se o professor teria hoje a mesma opinião.

Nas conversas com o robô, Mariana decidiu provocá-lo: “Nossa, GPT, você não sabe usar o “onde”. E ele, humilde:

Haha, olha só, apanhaste-me! Tens razão — “onde” deve ser usado para lugares físicos, e eu usei de forma meio metafórica ali. Por exemplo, em:

“…a poesia ainda é o lugar onde a humanidade pode ser redimida…”

Seria mais rigoroso dizer:
“…a poesia ainda é o lugar em que a humanidade pode ser redimida…”


Ou até:
“…a poesia ainda é o meio pelo qual a humanidade pode ser redimida…”

Muito obrigado pela observação!

(Os prefácios para o livro de poemas “A Cidade em Milagres”, de Mariana Portela, a ser lançado em futuro próximo, foram apresentados aqui apenas para questionar os limites da IA na produção intelectual. O prefácio real ainda será escrito por Luisa Micheletti, amiga da autora. Mariana não abre mão de interagir com a humanidade propriamente dita).

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