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Vênus, minha Leoa

Tipo de projeto

Fotografia

Data

Abril 2023

Vocês sabiam? Neste momento, o Planeta Vênus está domiciliado no signo de Leão.

O que tem a ver? Para mim, uma benção: Vênus mora em Leão no meu mapa astrológico – estou, agora, mais ligado à beleza do que nunca.

Não acredita nessas coisas? Estranho, porque a maioria dos habitantes do Planeta crê em entidades e conceitos invisíveis, imponderáveis. Então, sem hipocrisias, por gentileza.

Há muitos anos, uma astróloga amiga compôs o meu mapa e, entre mil coisas, mandou-me atentar especialmente aos momentos em que a graça e o encanto surgissem à minha frente.

“Você tem Vênus em Leão, e isso significa uma atração arrebatadora pelo que é belo, harmonioso, elegante. Seus olhos e sua alma serão escravos de maravilhas”, disse-me, com outras palavras.

E não deixou de me advertir de que as gentes e as circunstâncias provocariam, por outro lado, sentimentos e sensações opostas – que me fariam sofrer.

Verdade: na infância e adolescência, padeci bastante, na cidade onde morava, o Recife, de compaixão pelo outro. A desigualdade social, ou a crueldade social, pior do que a de hoje, constrangia e revoltava. Na verdade, não mudou tanto. Por isso, detesto políticos. Generalizo? Não me arrependo.

Esses arroubos de misericórdia impotente daquela época talvez tenham até contribuído para a minha bipolaridade light, sobretudo quando visitava, com frequência, a Capela Dourada, da Ordem Terceira de São Francisco, na Rua do Imperador, centro da cidade.

A nave é um esplendor!

Um monumento barroco do século 16, coberto de ouro nas talhas de madeira que forram os espaços das paredes, e nos altares, e no teto. Para completar, enormes quadros a óleo, todos impressionantes.

Ouro, ouro, ouro.

E, lá fora, no pátio, mendigos a suplicar migalhas aos piedosos visitantes. Eram humanos abaixo da miséria: os que mais me abalavam expunham chagas sanguinolentas. Lembro de uma devota dizendo que até lhes daria uma moeda, mas tinha nojo de chegar perto. E se o desvalido estendesse a mão, para pegá-la?

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E, lá dentro, o ouro, o ouro, o ouro. Lá dentro: a casa de São Francisco de Assis, fundador da “Ordem Mendicante dos Frades Menores”, no século 12.

Por outro lado, visitava, também, os sítios de sonho do Recife, seus mares verdes, ou azuis, ou embaralhados dessas cores, em tonalidades mil, contrastando com os corais negros… Agora, olhe, olhe um veleiro lá longe, e nuvens esgarçadas, lembrando um poema de António Gomes Leal:

Deixa escrever-te, verde mar antigo,

Largo Oceano, velho deus limoso,

Coração sempre lírico, choroso,

E terno visionário, meu amigo!

(…)

Vênus em Leão costuma entrar em delírios estéticos.

(Quem visitar as colinas da vizinha Olinda, para contemplar a paisagem de mar lá-longe, aconselho que, disfarçadamente, segure-se no parapeito mais próximo. Os enlevos estonteiam).

Já havia lido e decorado de outro poeta, Manuel Bandeira, para mim o maior dos maiores brasileiros, a manifestação máxima da beleza, que ele descobriu quando criança, e depois chamou de “alumbramento”.

(…)

“Um dia eu vi uma moça nuinha no banho

Fiquei parado o coração batendo

Ela se riu

Foi o meu primeiro alumbramento”.

(…)

Não lembro qual foi o meu primeiro, mas há alguns que jamais me saíram d’alma.

(Com a idade, percebi algo que aquela astróloga não me contou: as belezas anímicas também atraem fortemente Vênus em Leão. Quantas pessoas lindas, admiráveis, fascinantes, já conheci e conheço, sem jamais associá-las à imagem física? Muitas.)

Um momento divino, que tive o privilégio de viver, foi em Turim, onde trabalhava como executivo de comunicação. Nos fins de tarde, sempre sozinho, ia tomar um café com cantucinni numa aconchegante confeitaria de mesinhas na calçada, perto do meu hotel, e lá desfrutava um pouco do dolce far niente puramente italiano, em que a única obrigação, segundo dizem, é continuar respirando.

Em uma daquelas tardes gentis, reparei um vaivém incomum de carros parando em frente a um prédio do outro lado da rua.

Vênus em Leão achou que saíra do mundo: aos poucos, desembarcavam figuras oníricas, umas de roupas ao estilo nobreza medieval, multicoloridas; outras, fugitivas de telas seiscentistas; outras, ainda, de vestes cósmicas, indefiníveis e inimagináveis. Os trajes ostentavam muitas e muitas cores, algumas de mesclagens inéditas, sempre harmônicas, e vivas, muito vivas, saltitantes. Quase todas as personagens usavam máscaras de um branco relaxante – a mais perfeita das cores.

Entre um êxtase e outro, fiquei sabendo que se tratava das fantasias premiadas no último Carnaval de Veneza. Naquele prédio, meus alienígenas receberiam láureas e reverências.

Não lembro de outro alumbramento tão forte, tão venusiano/leonino.

Aliás, lembro, sim: foi na fração de segundo em que vi um OVNI, no ano glorioso de 1981. Mas essa é outra história.

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