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Anáguas, Lembra?
Tipo de projeto
Fotografia
Data
Abril 2023
Há, dentro de um município onde morei, um bairro chamado “Bairro da Senhorinha”.
A curiosidade sempre me provoca. Quem terá sido a “senhorinha”? Por que “senhorinha”?
Um estímulo leva a outro e logo me dei conta de que não existem mais senhorinhas. Nem cavalheiros.
Aquela senhorinha de outros tempos andava de saia (saias, que extravagante, hoje!), decote comedido e, quem sabe, portava uma sombrinha, de estampa florida, para proteger-se de Sol qualquer. Rescendia a Leite de Rosas. Será que a moça que deu nome ao bairro era assim? Vestia anáguas? As atuais similares às senhorinhas d’antanho já ouviram esse termo?
Preciso pesquisar melhor o Bairro da Senhorinha, mas não tenho esperanças de descobrir alguma coisa. No entanto, não consigo superar esse meu fascínio por falsa cultura, inutilidades e suas variações. Continuo tentando esquadrinhar nomes de ruas, avenidas, bairros, até instituições. Vivo catando histórias de antepassados. O inútil é leve e prazenteiro.
Morei durante anos em uma avenida chamada Padre Pereira de Andrade. Imagine se consegui alguma informação sobre o clérigo. Na verdade, recebi algumas, todas fake. Um senhor que parecia bom informante jurou que se tratava de uma homenagem a um frade lusitano, Teófilo José Pereira de Andrade, O.F.M., que se elevou ao Céu em 1954. Teria sido o primeiro bispo de Nampula, em Moçambique. “Aposto que pegou no Google”, maldei comigo mesmo. Não deu outra.
Até pouco tempo, morei em um logradouro chamado Estrada Lino Espingarda. Quem terá sido a figura? E o porquê desse nome? Apelido (se do Bem)? Ou alcunha (se do Mal)? O mais evidente é que seria um antigo morador dessa estrada, que andava com uma espingarda no ombro. Para matar passarinhos? Defender-se de bandoleiros? Não apareceu nem fake e o Google também não ajudou.
Ah, mas consegui desforrar-me dessas frustrações. Uma das mais importantes avenidas da Zona Norte de São Paulo chama-se Inajar de Souza. Meu amigo! Trabalhamos juntos no Jornal da Tarde durante alguns anos. Foi embora muito cedo do Vale de Lágrimas. Há algum tempo atravessei a Inajar de Souza em um Uber e não resisti.
“O nome desta avenida é de um amigo meu”.
“Não brinca!” Motorista muito jovem. “Amigo? Nome de rua é só de quem já morreu…”
“Mas ele morreu. Faz mais de 40 anos. Era um cara legal e ainda tem muitos amigos sobreviventes”.
Contei umas histórias divertidas do Inajar, repórter talentoso, e brincalhão como uma criança. Confessei meu capricho recreativo com nomes de logradouros.
Agora devaneio: pessoas minhas queridas bem que mereceriam aquelas homenagens das prefeituras. Penso numa praça chamada Maria Camelo, nome da minha bisavó, que também conheci. Ela alcançou o recorde da família: foi embora aos 106 anos. Vítima, acredito, de síndrome de abstinência: lhe tiraram a cigarrilha aos 100 anos porque queimou o colchão. Fiquei revoltado. Mas não tinha idade para rebeldias.
Suposições sobre o Bairro da Senhorinha insistem em me incomodar. Não deixa de ser, também, nostalgia dos tempos em que havia senhorinhas e outros conceitos românticos.




