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Sonhando Escrevendo
Tipo de projeto
Fotografia
Data
Abril 2023
Revivi a infância e descobri: a arte de escrever histórias independe de objetos – papel, lápis, dispositivos mecânicos, computadores. Escrever é inventar. É um pouco mais: organizar e administrar sonhos em vigília.
Assim, volto à velha casa do bairro da Madalena, no Recife. Tenho uns seis anos, talvez menos, e estou deitado de costas na sala de jantar, ao lado da cristaleira, só de bermudas. Um calor terrível abraça tudo, mas o piso é deliciosamente frio. Minhas costas exultam.
Aí os personagens vão passando. A maioria gente conhecida, parentes, vizinhos, amigos próximos e distantes, vendedores de tudo, colegas das secretárias domésticas e o papagaio Quequé, quase sempre às gargalhadas, quando não imita o bater de palmas. Lucilla, distraída, atende ao portão. “Ô louro! Você de novo me enganando…” E ele rindo, rindo.
Lucilla é uma das minhas mães. Tive duas: a primeira sumiu muito cedo do Planeta; e a segunda, irmã do meu pai, me assumiu. Lucilla não me aprova estatelado na sala durante horas. Mas não tem autoridade para tirar-me de lá. Audácia, perturbar alguém que escreve em sonho! Apesar da idade, me sinto no comando. Criar enredos leva tempo. No entanto, uma boa birra, com ameaça de choro, resolve o assunto.
E aí surge uma história atrás da outra.
Zeza, a empregada novata, embebeda o peru, antes de abatê-lo, para lhe amaciar a carne, mas o bicho sofre coma alcóolica. Zeza se arrepende, chora.
Seu Hansen, o vizinho dinamarquês, passeia com seus dois cachorros gigantes e as pessoas se assustam. Um deles se solta da coleira e morde a panturrilha do leiteiro Jeremias. Confusão infernal. Uma multidão corre pelas ruas atrás do bicho enorme. Seu Hansen volta para casa com o outro, ambos ameaçados de lapidação.
No fundo, no fundo, histórias pobres. Personagens reproduzidos da realidade. Aos poucos, comecei a inventar figuras menos previsíveis. Umas até voavam. E a ficção tomou conta de quase tudo.
Como se vê, aquela atividade literária em sonho não se limitava a simples pensamentos – lampejos, flashes, chispas mentais. Havia lógica nas narrativas, algumas com começo, meio e fim; às vezes, eram reescritas ou corrigidas.
O pequeno escritor se deliciava com seu estado avançado de devaneio, imune a conselhos e broncas. Do chão não saía. Afinal, quem é que mandava ali?
Filho único é um inferno para pais ou responsáveis, além do entorno familiar. Os de mãe adotiva são os piores: percebe muito cedo o quanto ela tem medo de ser apontada – e criticada – como tal. E acredito que meu pai, com sua sabedoria dissimulada, absorvia bem aquela situação insolúvel. “O menino já perdeu muito, melhor não contrariar”. Não me recordo de algum grito que ele me tenha dado. Aliás, para ele, mais do que a condição do filho, o mundo era insolúvel. Por isso, na definição precisa da Lucilla, meu pai era “muito descansado”.
Naturalmente, ele foi um dos meus primeiros personagens nas obras em sonho. E tinha companhia: Mariazinha. Ele, o viúvo deprimido, ainda jovem e bonito. Ela, perto dos 30, disponível, alegre, vistosa, um tanto gordita. De uma família paraense. A mãe dela, dona Queta, produzia petit four de alta gastronomia, como as barquetes de camarão. Sinto o gosto sublime, até hoje.
Todo mundo – e isso incluía parentes e anexos – tentava viabilizar aquele casamento. Sob inúmeros pretextos, Mariazinha não saía lá de casa. Fiquei em dúvida: considerei dois finais para aquela história.
No primeiro, o casamento acontecia. Aí, ela deveria vir morar conosco. Mas o único quarto vago era meu também – para um vistoso trem de corda, além das bolas de futebol, mesa de ping-pong, revólveres de plástico e, bem camuflada, uma cesta de frutas variadas para comer escondido.
Para não perder meu espaço, a única saída seria uma mudança para casa parecida, em rua próxima, com oitão de fruteiras e quintal amplo, como a nossa, porém dotada de um segundo andar. Nele, imaginava dispor, também, uma estante de livros e gibis, mais os cadernos grandes para desenho.
Mesmo com essa solução, havia uma séria ameaça: a possibilidade de um irmão ou, mais grave ainda, uma irmã – ser inútil que não jogava futebol.
No outro final da história, aquela união inconvincente, sem conversas de portão, como entre namorados das casas vizinhas, seria destroçada por uma surpresa tragicômica. Certa noite, à frente do nubente, homem sério e contido, Mariazinha escorregou em alguma coisa e se espatifou no chão. Queda grotesca: saia na cintura, pernas para cima e calcinhas grandes aparecendo. Mulheres da época usavam essas fraldas estranhas. Que esvoaçavam como bandeiras brancas nos varais.
Fim do arranjo matrimonial. O ridículo afeta relacionamentos. Um amado pode rir da cara do outro pelo resto da vida. Na cerimônia de núpcias, caso houvesse, meu pai olharia para a noiva, antes do sim, lembrar-se-ia da queda e sofreria um ataque de riso na frente do padre perplexo – que acabava dando as costas para os noivos e encerrando a cerimônia. Só de pensar nessa abstração, ri sozinho muitas vezes.
Esse era o melhor final, sem dúvida.
Escrever histórias em sonho não é passatempo da infância; acompanha toda a vida. Mesmo depois de publicar livros, continuei escrevendo no éter. E quantas enredos não perdi!
Nem sempre é possível registrar ideias, frases ou períodos inteiros, quando a luz invade a mente. Pegar uma cadernetinha no meio de uma missa de sétimo dia para anotar doidices? E é difícil retê-las na memória. Perdem-se no éter para sempre.
Ainda bem que tudo está armazenado nos Arquivos Akáshicos, garantem os esotéricos. De uma conversa com Deus a um desejo inconfessável.
Ocultistas têm acesso cômodo a esses fascinantes galpões, contêineres, escaninhos, nuvem online.
Mas vamos deixá-los para lá: o sonho é um manancial infinito de histórias.




