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Héroi. Conhece algum?
Tipo de projeto
Fotografia
Data
Abril 2023
Fernando Portela
É tão raro conhecer um herói como avistar um disco voador.
Sei do que estou falando porque convivi com um e vi o outro, mas este vamos deixar para depois.
O meu herói, um funcionário público, deveria ser reverenciado (um pequeno busto, quem sabe?) por todos os servidores dos chamados Três Poderes. É claro que há vários heróis entre eles – só de bombeiros, imagino um bom número.
Mas há, no meu herói, algo de – como diria? – extraordinário, eletrizante, espantoso, fenomenal, único… eu me perderia em adjetivos.
Estivemos juntos em uma ocasião quase limite, como são todas em que você invade a selva amazônica, a centenas de quilômetros de algo civilizado, usando barcos indefiníveis, jipe debilitados e, sobretudo, aviãozinhos anfíbios, provectos e quebradiços, a sobrevoar rios loucos e perder de vista a extensão das copas de árvores colossais, coladas umas às outras – visão aflitiva, sensação agoniante de estar só no mundo.
Em março de 1976, esse era o ambiente normal de trabalho do astrônomo Dilermando de Moraes Mendes, à época com 54 anos, lotado na Primeira Comissão Demarcadora de Fronteiras do Itamaraty. Sua missão, ao lado do capitão-tenente Joaquim Eduardo Wiltgen Barbosa, 36 anos, cedido pela marinha ao Ministério das Relações Exteriores, era a de simplesmente demarcar os limites do Brasil numa área de 9.747 quilômetros, do Amapá ao fim da divisa entre o Acre e o Peru. Somente eles dois.
Não se lhe dá muito valor, mas é a linha mais “grossa” do mapa do Brasil, e precisa ser desenhada, demarcada e até alterada com precisão científica. A olho nu você fantasia, na paisagem de exuberância minimalista, um país vizinho invadindo 500 quilômetros do nosso território, sem que alguém se dê conta. Ou vice-versa.
Naqueles ermos, não há como não sentir um certo orgulho da ousadia dos nossos ancestrais lusitanos, apoderando-se de uma imensidão continental, antecipando-se aos nossos vizinhos. Uma história nunca esmiuçada, como deveria.
Então, no meio dessa desolação assustadora, o nosso herói, junto ao seu parceiro, tinha de descer, por uma escada de cordas, de um helicóptero que se posicionava no ponto mais baixo possível, sempre à margem de um rio, para não colidir com as árvores. A altura, dez metros ou mais. O marco já havia sido jogado antes: uma estrutura de cimento, misturado a metal, de um a três metros de altura, e de 30 a 100 cm de largura.
Os demarcadores sempre trabalham em duplas, junto aos seus colegas dos países vizinhos. Então, lá embaixo, ficam quatro homens no meio da imensidão, enquanto o helicóptero, com sua escadinha de cordas, aguarda o sinal de retorno. Dependendo do tempo estimado para a implantação de um marco novo, ou substituição de um antigo, arruinado, o grupo levava provisões para dias de trabalho.
Esse tempo variava de acordo com imprevistos. Afinal, eles adentravam a selva, o que não é fácil nem para índio.
Marcos, como muitos imaginam, não se colocam às margens de rios. Os rios, na verdade, é que servem de fronteiras, em milhares de quilômetros. De qualquer forma, a localização da maioria dos marcos fica dentro da selva e isso significa risco de vida iminente. Àquela época, havia 911 marcos a nos separarem dos nossos vizinhos.
A Amazônia é uma floresta de chuva: a umidade é quase insuportável, o solo é lamacento, e sob um calor satânico podem surgir cobras de súbito, de Jararacas a Surucucus, onças incomodadas, e a travessia de um simplório igarapé, torna-se às vezes suicida, com aqueles jacarés à espreita.
E não há só bichos grandes a desventurar nosso herói e seus parceiros: era preciso enfrentar formigas, escorpiões e aranhas venenosas, assim como certas plantas que não podem ser tocadas. Basta? Não: os mosquitos talvez sejam o maior suplício de um aventureiro nas vísceras da selva; eles transmitem inúmeros tipos de doença, como dengue, malária, febre amarela.
O bicho-homem, eventualmente, também pode surgir na pele de alguma tribo incivilizada e agressiva.
O herói Dilermando passou por tudo isso durante mais de 20 anos, chegou a contar 46 ataques de Malária, fora outros infortúnios, como quebra de costelas e ruptura renal, quando saltou do esqui de um helicóptero.
Mas vejam o que ele me disse, a bordo do velho Catalina, sobrevoando um rio sem nome, e falando alto para superar o ruído do motor: “Antigamente, a gente sofria um bocado; ia de barco e às vezes perdia o rumo, era obrigado a atracar, por causa dos rios encachoeirados, quando as correntes ficam nervosas. A gente viajava dias, muitas vezes sob tempestades, perdia até a comunicação pelo rádio. Mas, hoje? Hoje é sopa! O helicóptero nos deixa no lugar certo e depois vai buscar…”
Ele nos indica, ao fotógrafo e a mim, alguns pontos onde marcos podem ser avistados.
Baixinho, inquieto, cabelo ralo, com um sorriso sutilmente irônico.
“Hoje é sopa”? Ah, não, ele não podia estar falando sério.
Além de provisões e hit de socorro, Dilermando carregava sacolas de couro onde guardava curvímetros, barômetros, bússolas, cronômetros para hora média e sideral e outros instrumentos sofisticados de precisão. Por dever de ofício, estudara, além de Astronomia, Física, Química, Aerofotogrametria e Astronáutica, entre os essenciais. E se comunicava em francês (Guiana Francesa), holandês (Suriname), inglês (Guiana) e espanhol (Venezuela, Colômbia e Peru). Por outro lado, o trato diplomático é inerente ao trabalho de qualquer funcionário do Itamaraty. E Dilermando valorizava essa atribuição. Demarcar terras exige equilíbrio e serenidade profissionais.
Entre os pilotos maldosos da área, comentava-se que Dilermando às vezes se distraía e o país vizinho perdia um ou dois rios e uns quilômetros de floresta. Eu não acredito. Mas os fuxiqueiros insistiam.
Quando um país vizinho de língua espanhola reivindicou alguns quilômetros quadrados de serras, que até então nos pertenciam, Dilermando entrou em ação. Uma expedição binacional, de 80 homens, metade de cada lado, lá se foi tirar dúvidas.
Viagem demente. Dilermando, junto ao demarcador-chefe do país vizinho – um pouco acima do peso – e demais vítimas, enfrentaram terrenos inacessíveis, viajaram quase um mês dentro da selva, e sempre à noite, porque o calor era insuportável. Atravessaram rios de piranhas e jacarés, cruzaram tribos de índios jamais vistas e, dois meses depois, ao pé de uma das serras demandadas, nosso herói preparou seu traje de alpinista, enquanto toda a expedição, desfalecida, tentava recuperar as energias.
Dilermando encorajava o colega: “Vamos fazer a marcação estelar lá em cima”. Em cima significava cerca de mil metros de altura. O estrangeiro emagrecera muito, seu aspecto sugeria cuidados médicos.
(E é aí que entra a maledicência dos pilotos).
“Vamos lá, homem, pegue a picareta, vamos já!” – incitou o herói.
“Señor Dilermando, eu estou quase certo de que essas serras são do Brasil, acho que houve um equívoco”.
“Se houve, a gente vai tirar a limpo agora””
– São do Brasil, si, não há dúvida…”
Chocado com a falta de patriotismo do outro, Dilermando subiu a serra com alguns da expedição, fez os seus cálculos e desceu aliviado:
“São do Brasil, sim. Mas a gente tinha de ver, ora…”
Quando falou de marcação estelar, nosso herói se referia aos cálculos teóricos que determinam uma fronteira binacional. Um tratado de limites afirmava, por exemplo, que uma fronteira se encontrava no meio de um rio; se esse rio mudasse de curso, o que ocorre frequentemente, os especialistas deveriam ser convocados. E lá ia Dilermando com seu teodolito Wild T2, observador astronômico, e seus cronômetros para hora média e sideral, mais um rádio receptor de sinais horários, além de termômetros e barômetros, tentar encontrar um ponto de referência.
Ele calculava pares de estrelas com base em uma efeméride organizada pelos maiores observatórios do mundo, onde estavam registradas 1.543 estrelas, com sua ascensão reta e declinação para cada ano. Esse cálculo estelar iria determinar se o ponto se encontra na posição exata.
(Não se pode dizer, no meio de um rio, que para lá é Colômbia – por exemplo -, e para cá é Brasil. Uma penosa negociação entre os países vizinhos procura resolver essas questões, como dividir os recursos envolvidos, incluindo a pesca e outros).
Mas era exatamente ali que entrava a diplomacia do parceiro de Dilermando, o capitão-tenente da Marinha, Joaquim Eduardo Wiltgen Barbosa. Nesta narrativa, pode parecer que ele foi injustiçado. Nada disso. Ele também, heroicamente, acompanhou inúmeras vezes o amigo Dilermando nas aventuras insanas. Mas seu papel era outro: analisar todo o processo burocrático-diplomático de cravar e inaugurar marcos, junto com todas as consequências. Era ele que, sempre ao lado do seu correspondente vizinho, tirava dúvidas, assinava os termos de legalização. Nessas comissões binacionais, tudo acontecia em duplicata. Se houvesse um evento comemorativo, como um almoço, um cozinheiro brasileiro e outro estrangeiro preparam a refeição. E caso um marco tombasse de velho, ou avariado, ninguém, absolutamente ninguém, era autorizado a tocá-lo. Uma comissão mista iria até o local e tudo começava de novo, onde cada objeto ou personagem envolvido possuía um correspondente, como num espelho infiel.
Agora, só para fechar este texto, e justificar todas as loas ao Dilermando, vamos revelar que foi ele o descobridor do Pico da Neblina, ao norte do estado do Amazonas, na serra do Imeri.
É o ponto mais elevado do Brasil, com 2.995,30 metros de altitude.
Deveria constar dos livros de Geografia, sem omitir o nome de seu descobridor.
No dia 20 de outubro de 1962, nosso herói, junto com o demarcador venezuelano Georges Pantchenk, voaram durante cinco horas pelo maciço (a parte elevada, de quase 60 quilômetros quadrados, é formada de picos superiores a dois mil metros). Eles desenharam uns croqui da região. Foi a primeira checagem. Nos anos seguintes, continuaram elaborando mapas. Até que, em 1965, uma expedição demarcatória brasileira-venezuelana, de 60 homens, 30 de cada lado, iniciou a escalada. Dilermando e George Pantchenk à frente.
Havia a dúvida: o Pico da Neblina é brasileiro ou venezuelano? Dilermando provou: é brasileiro. Medições astronômicas, pontos de referência, cálculos e discussões não deixaram dúvidas: o Pico está mesmo do nosso lado, a 687 metros da fronteira com a Venezuela.
O herói esquecido do Brasil saiu dessa escalada com uma costela fraturada (“quedinha, bobagem”). Problema mesmo foi em outra ocasião, em 1948, também numa demarcação com a Venezuela, quando índios Auateris saquearam o acampamento, deixando os demarcadores com duas semanas de fome. “Aí foi sério”, admite o herói.
O Catalina voava, não sabíamos ainda onde iríamos pousar (talvez no meio de um rio, há poucos aeroportos compatíveis e os motores pifam com frequência) e Dilermando, o lépido, me revelou outras histórias que viveu.
Não quero ser injusto: conheci heróis, sim, em vários grupos de atuação humana. Mas heroísmo, como tudo, também possui escala, gradação, hierarquia. Dilermando de Moraes Mendes está no topo.
Agora, vocês já conhecem o meu herói, super-herói brasileiro, que as nossas escolas sequer imaginam. E tenho dúvidas se algum historiador vai se interessar.
Quanto ao OVNI da minha primeira frase neste texto, garanto que depois eu conto.




